RUÍNA



                                                                                                    Foto: Google.


Um monge descabelado me disse no caminho: "Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque abandono pode não ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. ( O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo." E o monge se calou descabelado.
Manoel de Barros 


Materiame... Materiame... Materiame.

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