Liquidez


A gente habitua-se. Sim, ouvimos dizer muitas vezes, ou dizemo-lo nós próprios. A gente habitua-se, dizemo-lo, dizem-no, com uma serenidade que parece autêntica, porque realmente não existe, ou ainda não se descobriu, outro modo de deitar cá para fora com a dignidade possível as nossas resignações, o que ninguém pergunta é a custa de que de se habitua a gente. (SARAMAGO, 2000, p.249)

Habituar é uma palavra que tem me incomodado bastante, assim como naturalizar, normalizar, conformar.
Um homem de pés sujos disse certa vez que ao olhar o mundo, não devemos vê-lo com naturalidade, conformismos. Mas devemos transformá-lo através da renovação da nossa mente. (Rm12:2)
Transformação, eis uma palavra cativante.
Sabe, quando observo a loucura na qual vivemos e a mesma deteriorizando nossa capacidade de ser humanos. Isso, mesmo... estamos liquidificando (eu, tentando citar Bauman...rs).
O sociólogo, diz dessa liquidez nas relações humanas, no amor, na sociedade... como algo que está em colapso, no sentido da incerteza e insegurança, onde a solidez dos referenciais morais antigos estão perdendo espaço para o artificial, o imediatismo, o consumismo. Há críticas, mas ok, prossigamos...
Tudo isso tem uma relação em si sem dúvida, humano que somos, modificamos e somos modificados pelo que nos rodeia, e se a sociedade está doente... estamos nós. Afinal quem adoece quem? ou quem adoeceu primeiro? 
Fato é que estamos nos habituando a esse ser desumano a cada dia que passa. Se antes segundo a evolução, nos constituímos\lutamos e conquistamos nossa humanidade. Hoje, arrisco dizer que estamos em processo de solidificação dessa liquidez.
Atos cada vez mais irracionais, assim escolho pensar, devastadores, impulsionados
pelo imediatismo, dirá uma reação de reflexo, e essas reações por "reflexo" estão normartizando, naturalizando, habituando-se. 
 - "Mas como? eu não, eu me incomodo, me entristeço com os desastres." 
 - Por quanto tempo? qual a duração da nossa revolta? a que movimento ela nos leva?
Há algumas semanas, não preciso contar a história ou postar a foto para que você saiba do que estou falando, racionais que somos, apenas três palavras bastam para a imagem vir a sua mente. MENINA - SANGUE - MÃE.
Não consegui vir na internet parafrasear, e gritar minha angustia.
Não desceu, ver duas mãos ocupadas com uma camêra que poderiam estar em um abraço a criança desolada.
Me cansa a realidade que Tiago musicalizou, "Quando foi a última vez, que você saiu sem... instagranear"  acrescento facebokear, snapear, youtubear... (IORC, Música: Sol que me faltava)
Não consigo entender...o compartilhamento do horror em um instante, e no instante seguinte como um mergulho rápido, ou uma piscadela a atenção sai do horror para uma comédia em imagem ou vídeo.
Somos produto. Produto do que como os jornais e as mídias em geral nos ensinam a fazer e ser... Somos treinados ao "habituar-se" como disse Saramago, com uma serenidade que parece autêntica. 
A esperança está no que ele diz em seguida... Parece autêntica, pois "...realmente não existe, ou ainda não se descobriu outro modo de deitar cá para fora com a dignidade possível as nossas resignações..." não existe ou encontrou, um outro modo de aceitar pacificamente as dores ou sofrimentos da vida, como traduz o dicionário o sentido da palavra resignação...
Que não esqueçamo-nos nunca de ao menos nos perguntar o "a custa de que de se habitua a gente".
A custa de que, se habitua a gente?
Habituam a gente,
dizem-nos.
dizemo-los.

"Não se ajustem de mais à sua cultura, a ponto de não poderem pensar mais. Em vez disso, concentrem a atenção em Deus... Diferentemente da cultura dominante, que sempre o arrasta para baixo, ao nível da imaturidade. Deus extrai o melhor de vocês e desenvolve em vocês uma verdadeira maturidade." 
(Romanos 12.2 - Versâo A Mensagem, de Eugene Petterson)





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